
Ainda andávamos todos a comentar o gesto de um ministro português a fazer “cornos”, já um dirigente benfiquista aparecia na televisão a dizer que se estava cagando para as objecções jurídicas que estão a ser levantadas às eleições no maior clube do mundo.
O uso do calão vale o que vale.
Eu comecei a entender melhor a amplitude do vocabulário quando, ainda jovem, caminhava um dia pela Rua de Santo António perto de um grupo de distintas senhoras e ouvi uma delas, esposa de um reputado médico de Faro, dizer às amigas: “Eu estou-me cagando.”
Ainda fiz questão de olhar para a dama e observar se ela por acaso ía apertando vigorosamente as pernas contra alguma diarreia inoportuna, mas não senhora: aquilo era um vocabulário figurado, que eu até então pensava ser exclusivo de trolhas e de gente menos letrada.
De então para cá, podia aqui fazer uma lista de gente com status a quem já ouvi uns palavrões menos convenientes.
A imprensa chama gaffe à liberdade verbal de Manuel Vilarinho. Mas não é gaffe. É assim que se fala hoje em dia, nas tabernas, nos gabinetes, nos corredores do poder, nos bataclãs ou onde quer que estejamos.
Podemos chamar a isto uma imagem de marca dos tempos que correm.
Pode ser sintoma de baixo nível. Mas os níveis de pudor, vergonha, sensatez e bom senso andam muito por baixo.
A conquista do calão é até para muitas pessoas uma maneira de se exibirem como desempoeiradas e descomplexadas.
Esquecem-se os sítios e os contextos. Vale tudo.