Arquivos para a Categoria ‘Uncategorized’

Estórias de Rufino

10 Novembro 2009

Na capa de Marta Rijo, no livro "O Cristianismo, génese da democracia moderna"

Muitos dos que o vêem pela Penha, no seu passo miúdo e octogenário, levando na mão o jornal da manhã ou uns boletins do euromilhões, não imaginam o passado cheio de estórias daquele professor e padre.

Rufino Silva nasceu no Minho e foi padre no Porto (em 1952), em Vila Nova de Poiares, Barcelos, São Marcos da Serra (em 1962), Alte, Olhão e (ultimamente) Faro, tendo em simultâneo sido professor de português em algumas escolas oficiais.

Chegado a 2009, quis publicar uma coletânea de estórias “bíblicas” que foi alinhavando com um estilo meio infantil meio filosófico.

Pediu apoio autárquico que lhe foi negado, mas não desistiu. Avançou por conta própria e publicou “O Cristianismo, génese da democracia moderna“, com uma bela imagem da cinquentenária ponte da Praia de Faro na capa.

Agora, Rufino, além de ter sido professor, é padre e escritor.

Porque “o homem vive de utopias e delas alimenta o espírito“.

A Rua do Commercio

9 Novembro 2009

Foto João Xavier em Olhão: Rua do Comércio

Olhão vive tempos de abertura a novas arquiteturas e a novos ricos, mas a sua origem de aldeia de pescadores pobres continua a ser notória em grande parte da sua zona antiga.

A Rua do Comércio, provinciana e humilde, é um exemplo de uma terra que foi crescendo sem grandes ambições no séc. XX, satisfazendo o ego dos seus habitantes com pequenas obras de contexto limitado.

Uma placa toponímica de outros tempos resiste às mudanças ortográficas e continua a escrever comércio com dois mm e sem acento. É, notoriamente, uma placa com lugar reservado num museu…

A boneca de Estremoz

7 Novembro 2009

Foto João Xavier - Rotunda da boneca, em Estremoz

Em Estremoz, terra rica de património religioso, as artesanais bonecas de barro, ricas em cores e adereços, são famosas e típicas. Não é por acaso que ali existe um museu do barro.

Numa rotunda, à entrada da povoação (perto do Modelo), a boneca de Estremoz destaca-se pela sua exuberância.

É mais um exemplo de como os arranjos artísticos das rotundas podem (e devem…) ser testemunhos da identidade do povo. Por muito que isso custe aos apologistas da globalização.

Paco Fortes

6 Novembro 2009

Retrato de Paco Fortes por João Xavier

Conta-se em Faro que Paco Fortes, depois de ter fracassado a sua carreira de treinador fora do Farense, regressou a Barcelona e andou pelas ruas da amargura, tendo sido orientado por uma instituição de solidariedade social que lhe arranjou emprego no porto da capital catalã.

Paco Fortes chegou a Faro no final da sua carreira de futebolista, tendo depois enveredado pela de treinador. Levou então o Farense à Taça UEFA e à finalíssima da Taça de Portugal.

Em 1998, o Farense chegou à última jornada a precisar de ganhar para não descer. Acabou batendo o Rio Ave com um golo de Djucick, num desafio transcendente. De tal modo transcendente, que eu me inspirei então em Fernando Pessoa e publiquei nas Chuteiras ao Sol, no Jornal do Algarve de 28/05/1998, este poema:

O mostrengo que estava ao pé do lar

Na tarde de sol ergueu-se a voar;

Em sua casa tinha papado três vezes,

Voou três vezes a chiar;

E disse: “Foste tu quem três vezes entrou

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos verdes ao pé do Ave?”

E do barco disse tremendo:

“Sou eu, o Paco, e estou fervendo.”

 

Mil vezes do banco as mãos ergueu,

Mil vezes nos bolsos as reprendeu,

E disse ao fim de saltar mil vezes:

“Aqui, no banco, sou mais do que eu:

Sou um povo que quer o que também é teu;

E mais que o mostrengo que minh’alma teme,

E roda nas trevas do fundo da tabela,

Manda a vontade que me amarra ao Algarve,

A fé e a paixão por Faro, cidade eternamente bela!”

Portugal paraíso turístico

5 Novembro 2009

Infografia de ANA Caldas no 24 Horas de 04/11/2009

O 24 Horas de ontem apresentou um trabalho de João Baptista sobre um guia turístico da Lonely Planet, segundo o qual Portugal é um dos 10 destinos mais atrativos do mundo.

Em Portugal, são então selecionados os 10 seguintes locais de exceção: Parque Nacional da Peneda Gerês, Parque Natural da Serra da Estrela, Braga, Porto, Coimbra, Lisboa, Castelo de Vide e Marvão, Sintra, Évora e Vila Nova de Milfontes!!!

O Algarve não consta.

100% correto: o Algarve é uma realidade à parte. Nem convém, na promoção turística do Algarve, mencionar que esta é uma região de um país chamado Portugal: isso só desvaloriza as nossas credenciais.

O Algarve é uma coisa e Portugal é outra.

Só é pena é que Portugal chupe as fortunas que o turismo do Algarve produz…

Uma rotunda de 1944

4 Novembro 2009

Foto João Xavier em Martim Longo

Em Martim Longo, no Nordeste algarvio, o Largo do Forte ganhou em 1944 uma rotunda (das primeiras do Algarve).

Em 2008, a rotunda do forte mereceu obras de requalificação e passou a ostentar uma obra de arte, com referências ao artesanato e à heráldica da freguesia.

Um sítio pacato onde até uma rotunda é um convite a que alguém se sente a observar o quotidiano…

Giões e o culto a São Domingos

3 Novembro 2009

Foto João Xavier - Ermida de São Domingos, em Giões

Giões é uma pacata aldeia do Nordeste do Algarve.

Começou por ser Nossa Senhora da Assunção de Giões, mas agora é, simplesmente, Giões.

Um documento de 1758 refere que Giões “está situado em um outeyro entre montes a que chamam serros…”. E Silva Lopes, já no séc. XIX, define-a como “uma aldeia grande, muito mal arruada, com boas casas, assentada em um outeiro entre serros…”.

A freguesia conta atualmente com cerca de 307 habitantes (census de 2001), dos quais 278 são eleitores (dados de 2009).

Giões (a 3ª maior povoação do concelho de Alcoutim) possuiu, presumivelmente desde o séc. XIII, uma igreja matriz: a de São Domingos (a da foto…). Em 1565 deixou de ser matriz, mas, pelos séculos fora, continuou a ser meta de peregrinação de doentes com febres, que íam rezar a São Domingos.

Já no séc. XX, a capela ou ermida de São Domingos acabou por ser abandonada, desaparecendo o telhado e as abundantes pinturas que lhe cobriam as paredes interiores.

Chegados a 2009, iniciam-se agora as obras de reconstrução, orçamentadas em míseros 31 mil euros.

Muito mal tem sido tratado o nosso património!!!!!!!…

O marco geodésico da Boavista

2 Novembro 2009

Foto João Xavier - marco geodésico da Boavista 204 metros

Ontem participei na caminhada desportiva organizada pelo Centro Social e Comunitário de Vale Silves no âmbito do programa do Instituto de Desporto.

Pela serra algarvia, belas paisagens, muitas encostas e um marco geodésico…

O marco geodésico da Boavista situa-se junto ao moinho do mesmo nome, no monte sobranceiro à Escola e ao Centro Social e Comunitário de Vale Silves, que tem vindo a desenvolver um trabalho de excecional mérito por aquelas bandas da freguesia de Boliqueime.

A moral e a decência

30 Outubro 2009

Capa do programa da 10ª Festa do cinema francês

Há quem pense que moral e decência são valores em desuso, próprios de gerações de outros tempos. Mas não é assim:  além de mudarem com os tempos, os padrões de moralidade e de decência mudam consoante as civilizações, os povos e a formação pessoal.

Ao mesmo tempo que por cá muitas mulheres saem à rua com calças elásticas ou descaídas até à púbis, em países árabes podem ser chicoteadas pelo simples facto de vestirem calças. E este é, meramente, um exemplo.

Para quem ainda não entendeu a dimensão da coisa, dou 2 exemplos mais…

Em 1783, o Bispo do Algarve publicou um edital segundo o qual “ao nosso Hospital dos Banhos de Monxique vão algumas famílias, depois das festas de São Miguel, com o fim de se divertirem e, esquecidas esquecidas das suas obrigações, fazem acções indecentes (…)”

Por esta altura já estamos a pensar em fornicações em lugares públicas ou coisa parecida. Mas não. Logo de seguida, Dom André Teyxeira Palha esclarece: ” acções indecentes, como bailes, barulhos indignos, destruindo as portas, entulhando os banhos, quebrando vidros”!

E chamava àquilo coisas indecentes!…

Eu, passados mais de 200 anos, fui à Gala de abertura da 10ª Festa do cinema francês, no Teatro das Figuras, em Faro. E, ao longo da passagem do filme “Le Plaisir de Chanter“, fui notando a indignação de muitas espetadoras: umas queixavam-se “Uma pessoa traz os pais a ver o filme...”; outras, professoras, arrependiam-se de ter convidado os alunos de francês para ver a obra…

E porquê? Porque as cenas de intimidade e sexo eram assíduas, com felações e outras manobras do género…

Escolher um filme como “Le Plaisir de Chanter” ( de Ilan Cohen e Philippe Lasry)  para uma Gala de um festival de cinema põe em causa os padrões de moral e decência de muita gente. Mas hoje em dia, nesta civilização ocidental degenerada, exibir sexo é prá frentex e quem não gosta é bota-de-elástico.

Assim vamos deseducando uma geração de jovens que baratinam os padrões e esbarram de cabeça numa espiral de aventuras que podem sair caras.

A terceira idade

29 Outubro 2009

No Correio da Manhã de 15/10/2009

Ontem foi o Dia Mundial da Terceira Idade. E esta notícia recente do Correio da Manhã é a melhor ilustração que podemos encontrar para o estado de relacionamento que vamos tendo com a terceira idade.

Um emigrante português foi encontrado mumificado em Paris, sentado há presumivelmente 2 anos numa cadeira. Há 2 anos… mas poderia ser há 6 anos… porque foi há 6 anos que ele e a sua família (uma mulher e 6 filhos) se incompatibilizaram.

A terceira idade é hoje em dia um pesadelo para muitas famílias: os cuidados e os afetos de que os mais velhos precisam dão muito trabalho e pouco rendimento. Não há por isso nada mais conveniente que uma incompatibilização.

É o melhor argumento. E depois pouco espaço há para pesos na consciência, porque consciência há cada vez menos e o materialismo ocupa mais neurónios que a gratidão e a paciência.

O povo diz “Filho és, pai serás“. Mas hoje em dia vive-se para o presente, para os prazeres, para os convívios entre iguais, para o egoismo, para a sacanice, para a garganeirice. Para muita “gente bem” desta sociedade hipócrita, gastar tempo com os velhos é gastar tempo com o passado, um pretérito muito imperfeito.