Só deixa de ser livre quem perde a dignidade

Recordação de Évora

Quando eu era puto, a filha de uma vizinha foi trabalhar para o Alentejo e regressou desavinda com um namorado que por lá arranjara.
Passado pouco tempo, o tipo mandou-lhe uma carta escrita a vermelho e a mulher não se cansava de lamentar a vergonha: escrever uma carta a vermelho significava então «mandar à merda» quem a recebia…
Vem isto a propósito da carta que José Sócrates escreveu um dia destes ao Diário de Notícias.
Desequilibrado emocionalmente (até o seu advogado diz andar enxofrado), o exgovernante quer fazer passar a ideia de que é, sobretudo, um preso político. Gere a pressão, com medo de passar a ser olhado como um simples cidadão, mas não vale a pena esforçar-se. Toda a gente sabe que ele é famoso, a sua prisão faz correr rios de tinta na imprensa e as produções criativas em que é protagonista multiplicam-se na net.
É triste a sua frase: «Só deixa de ser livre quem perde a dignidade.» Demonstra completamente a frustração de quem se vê atrás das grades mas teima em querer ostentar uma postura de superioridade filosófica.
Faz frio em Évora. Mas mais frio ainda está este país atolado com o seu consulado.

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