António Aleixo e as moscas

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Um dia, junto ao Guadiana, um nonagenário confidenciou-me a amargura com que tinha visto passar o médico («o senhor doutor») em calções.

«As pessoas já não sabem compor-se para sair à rua!» – queixava-se o velhote.

Foi na cidade pombalina que nasceu o grande poeta algarvio António Aleixo, que, parece que a propósito, fez um dia uma quadra:

«Uma mosca sem valor / poisa com a mesma alegria / na careca de um doutor / como em qualquer porcaria.»

O pobre do António Aleixo, moldado por uma sociedade hierarquizada e com limites impostos na escala social, achava que a cabeça de um doutor era algo de especial… mais que não fosse, pelo ego inflacionado.

Afinal, pensando bem as coisas, a cabeça de um doutor é como qualquer porcaria, sobretudo se o doutoramento foi de aviário ou o doutor nem doutor é… e apenas fez uma licenciatura qualquer, ao preço da uva mijona.

As habilitações superiores banalizaram-se de tal modo que encontramos licenciados empregados de lojas ou a fazer bolos. E já no tempo de Aleixo se dizia que «com papas e bolos se enganam os tolos»…

 

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