Archive for the ‘Toponímia’ Category

Vá até à Cortelha

17 Junho 2017

KODAK Digital Still Camera

Para quem se repete nos circuitos turísticos e viaja quase sempre para os mesmos sítios, recomendo hoje um passeio pela serra do Sotavento algarvio, sem precisar de chegar ao nordeste.

Vá até à Cortelha.

Muna-se de um mapa, apanhe o rumo norte em Vila Nova de Cacela e meta-se por uma estrada rural, primeiro em muito mau estado e mais acima com piso e perfis de boa qualidade.

Situada a mais de 200 metros de altitude, a cerca de 15 Km do Azinhal, a Cortelha é, em termos populacionais, a segunda maior localidade da freguesia do Azinhal (no ano 2011, foram recenseados na Cortelha 47 habitantes e 35 edifícios).

No ranking das edificações, a Cortelha é a 3ª maior povoação daquela freguesia castromarinense, com a particularidade de só ter atualmente edifícios construídos após a 2ª Guerra Mundial.

As habitações existentes na Cortelha são apenas de 1 ou 2 pisos, sendo uma delas a antiga escola primária.

Foi na Cortelha que nasceu em 1983 o ciclista Ricardo Mestre, vencedor da Volta a Portugal em Bicicleta em 2011.

«Cortelha» (do latim «cohorticula»), era um nome dado a currais, pocilgas, malhadas, pequenas cortes e cabanas de pastores.

Deixe a variante à aldeia e visite o aglomerado populacional.

Depois, pode seguir rumo ao Azinhal (há sinalizações a ajudar), vai passar sobre a bela ribeira do Beliche, abastecer-se na aldeia e retornar ao sul, quem sabe se para dar ainda uns mergulhos no cálido mar de Monte Gordo, Praia Verde ou Manta Rota, por exemplo.

O que você não vai mesmo esquecer é a viagem por um Algarve esquecido, natural, rude e puro… tão perto do litoral sobrelotado.

 

A biodiversidade do futebol

22 Fevereiro 2017

foto-joao-xavier-antiga-rua-dos-burros-lagos

«Só os burros falam de arbitragem!» – disse, há poucos anos, Filipe Vieira, presidente do Benfica. É um ideário que o fará repensar atualmente em quem contratou.

«Os principais clubes queixam-se muito, mas calam-se como ratos ao serem beneficiados.» – escreveu hoje no Record o editor chefe, Jorge Barbosa.

A simbologia dos animais nos clubes é muito interessante, porque, presumindo-se os humanos superiores aos outros animais, recorrem a eles como símbolos de grandes qualidades.

Em Portugal, entre muitos outros, temos os leões, as águias, os dragões e as panteras. Meros exemplos.

É bom termos biodiversidade no desporto e essa simbologia acaba por dar vida a um lado lúdico da vida. Ou como catarse ou para além da catarse…

[Na foto, a antiga Rua dos burros (em Lagos), onde, provavelmente, se falava muito de árbitros]

 

O século de Leão Penedo

13 Agosto 2016

foto joao xavier - rua leao penedo

Há cem anos, Leão Penedo nasceu em Faro.
Foi em 13 de agosto de 1916.
Depois de completar o ensino secundário na capital algarvia, foi viver em Lisboa e ali se tornou jornalista e escritor de mérito.
Algumas das suas obras, de grande qualidade reconhecida, foram argumento para o cinema de topo da sua época («Saltibanco», com Raul Semedo e «Sonhar é fácil», com António Silva e Laura Alves).
Com uma produção literária excecional nas décadas 40 e 50 do séc. XX, Leão Penedo gostava de vincar a sua marca algarvia.
Os seus livros são hoje praticamente desconhecidos, mas foram obras de referência no seu tempo: «Multidão» (publicado em 1942), «Caminhada» (em 1943), «Circo» (em 1946), «A raiz e o vento» (em 1954), «O homem enjaulado» (em 1955), «D. Roberto» (em 1962), etc.
Faleceu em Lisboa em 1976.
A capital do Algarve dedica-lhe uma rua, junto do Hospital de Faro.

Algarvia marafada com tufos nos sovacos

13 Julho 2016

foto joao xavier - pelos nos sovacos

A entrada de Salir foi requalificada e perdeu a placa toponímica, que deu lugar a um quadro de boas vindas com silhuetas.
No suposto rigor em relação à imagem que deu origem ao trabalho plástico, um pormenor ganhou aspeto desusado: nos sovacos da salirense bailadora, os cabelos mais parecem tufos de pelos…
Não havia necessidade…

Lagoa quer mudar de nome

9 Julho 2016

foto joao xavier - lagoa do algarve

Quem passa por Lagoa nota facilmente que o município local quer impor um novo nome para a cidade e para o concelho: «Lagoa do Algarve»!
O logotipo não é feio, mas não é propriamente uma ideia genial.
Lagoa é Lagoa, não precisa de acrescentar mais ao nome.
Lagoa dos Açores fica bastante longe e não há que enganar nem confundir.
Lagoa é apenas Lagoa – a propaganda agora exibida é apenas dinheiro deitado à rua.
Água é coisa que não escasseia por aquelas bandas. A lagoa que deu nome à terra já lagoa não é. Fiquemos com o topónimo.

A professora e as ratazanas

18 Março 2016

Foto joao xavier - rua da liberdade

Quando a guerra civil entre liberais e absolutistas espalhou o terror no Algarve, grupos liberais de Olhão montaram na zona hoje ocupada pela Rua da Liberdade um posto de defesa da então vila cubista. Corria o ano de 1833 e toda a zona envolvente era pantanosa, com sapais e esteiros da Ria Formosa.
Foi a derrota dos miguelistas que motivou o nome dado a esta rua.
Já no séc. XX, nos Santos Populares, a Rua de Liberdade, em Olhão, foi premiada em 1966, 1978 e 1983.
Comprida mas acanhada, sem passeios e mal alcatroada, esta Rua da Liberdade veio recentemente para os holofotes da imprensa nacional, devido a um caso escabroso de uma família triste.
Uma professora aposentada, octogenária, vive ali com uma filha de 65 anos, acamada (a dormir nua), e um filho (de 51) esquizofrénico.
No meio do lixo e em plena insustentabilidade, a família era frequentemente atacada pelas ratazanas que faziam daquele lar a sua casa.
Mordidas pelas ratazanas, mãe e filha foram então hospitalizadas e as reportagens televisivas entraram casa dentro…
Foi mais um caso para nos deixar atónitos e ao mesmo tempo indignados.
A sociedade urbana perdeu os níveis de solidariedade que antes as pequenas urbes conservavam. Vive-se cada vez mais a tentar assobiar para o lado e, mesmo com o elevado nível de desemprego e de inatividade que caracterizam a sociedade atual, inventam-se sempre indisponibilidades para a ajuda e para o altruísmo.
É-nos difícil imaginar o sofrimento daquela mulher que, depois de uma vida de trabalho, se vê com uma cruz tão pesada às costas… na rua da liberdade, mas sem saber o que é a verdadeira liberdade…

O papa no Algarve

8 Janeiro 2016

foto joão xavier - avenida papa francisco em quarteira

Tanto quanto se sabe, nunca um papa visitou o Algarve!
Quando o papa Bento XVI veio a Fátima, escrevi-lhe a sugerir-lhe a visita ao Algarve… mas não tive resposta.
Agora, que está prevista a visita papal a Fátima em 2017, pelo centenário da aparição aos pastorinhos, há quem se tenha juntado para convidar o para Francisco a vir ao Algarve.
É realmente sintomático da fraqueza das forças vivas do Algarve nunca terem conseguido trazer ao Algarve um papa: além de termos o promontório sagrado de Sagres, onde estiveram as relíquias de São Vicente, temos a Mãe Soberana em Loulé, vivificando uma dos mais fortes devoções marianas.
Nos finais de novembro de 2015, foi inaugurada em Quarteira a Avenida Papa Francisco. Não é o primeiro arruamento dedicado a um papa no Algarve. João Paulo II já merecera essa honra. O que é certo é que vai sendo tempo de as altas instâncias do catolicismo português se lembrarem de que o Algarve existe…

As metamorfoses dos nomes próprios

2 Julho 2015

Foto João Xavier - Largo de S. Luiz

O maior erro dos contestatários do novo «acordo ortográfico» que rege a escrita da língua portuguesa é a presunção de que deve ser mantido o que existe em termos de grafia.
É erro, porque a língua é viva!
A língua está em permanente evolução, em permanente polimento e em permanente enriquecimento.
A língua constrói-se todos os dias. Muda todos os dias!
Em localidades onde as placas toponímicas vão ficando velhas, é-nos fácil perceber como a escrita portuguesa se tem modificado.
Há 100 anos, escrevia-se «Luiz». Com Z e sem acento.
Depois… e muito antes do polémico acordo ortográfico, passámos a escrever «Luís». Com S e com acento agudo.
Erro erro é quem foi batizado como Luiz identificar-se como Luís. O nosso nome é o nosso nome de origem. Consta no Registo de Nascimento e assim se deve manter ao longo de toda a nossa vida. Veja-se o exemplo do grande realizador cinematográfico Manoel de Oliveira. Nasceu Manoel e teve o bom senso de nunca se metamorfosear em Manuel.
Nota: A foto foi feita em Alte em 2015.

Sem freiras… e sem padres

7 Maio 2015

Foto João Xavier - Rua das freiras

A Igreja Católica está a viver presentemente o Ano do consagrados e da vida consagrada, destinado a fazer refletir sobre os que decidem consagrar a sua vida à fé e à estrutura eclesial.
Durante muitos séculos, os Estados europeus viveram em comunhão de gestão com a Igreja Católica: o clero detinha o poder de, por exemplo, registar os nascimentos.
É por isso que a quase exclusividade dos dados escritos de muitos dos nossos antepassados só podem ser encontrados em documentos paroquiais.
Esse poder caiu abruptamente quando os Estados começaram a reivindicar a exclusividade de determinados poderes. Primeiro reivindicaram e depois impuseram.
Foi aí que, basicamente, começou a decadência do clero em termos de poder e credibilidade.
Depois, pessoas que eram vistas como puras e impolutas começaram a aparecer como pessoas iguais às outras, cheias de pecados e até com escassas virtudes.
Essa realidade, mais «palpável» no séc. XXI, é que provocou a maior hecatombe do clero em termos quantitativos: hoje em dia, o clero tem falta de padres e de freiras.
Para que o clero não se restrinja à toponímia, bom será que continuem a refletir sobre as causas de tudo isto…

O Dr. Geraldino Brites

4 Abril 2015

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Geraldino da Silva Baltazar Brites foi um dos mais insignes médicos que já viveram em Loulé.
Nasceu no Porto em 25 de julho de 1882 e foi professor universitário, médico e cientista.
Foi médico municipal facultativo em Loulé de novembro de 1908 a fevereiro de 1910, tratando gratuitamente os presos, os pobres e as crianças expostas, examinando as prostitutas toleradas e procedendo ainda às vacinações.
Investigou por cá diversas facetas da saúde daquela época.
Sobre a casa que em Loulé servia de hospício para crianças, escreveu então o Dr. Geraldino Brites:
«Da casa, toda ela em péssimas condições higiénicas, cheia de imundícies, é o quarto reservado para as criancinhas o pior: interior, sem luz e sem ventilação (…)»
Chegavam a morrer mais de 50% das crianças expostas no 1º ano; e nos anos seguintes o rol aumentava: em 10 anos, de 918 morreram 548!…
Perante a problemática da saúde maternoinfantil que naquela época se registava em Loulé, o Dr. Geraldino abriu uma secção de obsterícia.
Escreveu ainda em 1914 o livro «Febres infecciosas», uma obra essencial para o estudo da saúde no início do séc. XX no Algarve.
Seguiu depois para Coimbra, Lisboa e novamente Coimbra, falecendo em Lisboa em 23 de agosto de 1941.
Loulé homenageia-o na topomínia, mas pouca gente sabe explicar quem ele foi.