Archive for the ‘Toponímia’ Category

Esmurrado, pontapeado e estrangulado

6 Dezembro 2017

foto joao xavier - rua sebastiao cordeiro

Esmurrado, pontapeado e estrangulado! Assim foi assassinado há dias, em Loulé, um homem que vivia na miséria. Os 2 assassinos, depois, venderam o carro onde ele pernoitava e dividiram o dinheiro entre ambos!

O crime quase passou despercebido naquela cidade algarvia.

«Não era gente de cá!» – diz-se.

O episódio ocorreu na rua Sebastião Cordeiro, uma rua que desde 1991 homenageia um ilustre professor, pedagogo e escritor louletano que no séc. XVII exerceu a docência em Lagos durante duas décadas.

Antes, esta rua era conhecida como… caminho para a cabecinha do mestre. Agora, pouca gente repara no nome: dizem que é a rua do estádio. Uma rua com uma história triste para contar…

 

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A Várzea do Farelo

6 Setembro 2017

KODAK Digital Still Camera

Observando um mapa editado pela Região de Turismo do Algarve, reparei numa povoação situada a norte da Figueira, no concelho de Portimão: a Várzea do Farelo.

Fui então até lá.

Atravessada por um grande viaduto da Via do Infante, a Várzea do Farelo tem o nome numa loja agrícola, numa quinta e numa paragem de autocarro. Placa toponímica é que não!

O problema é recorrente: as nossas autarquias desdenham as pequenas povoações e, na incompetência que reina, até esquecem o dever de identificarem os respetivos limites na rede rodoviária.

Em muitos casos, o que encontramos são placas de aproximação, com seta. Depois, atravessamos as povoações sem que existam placas toponímicas retangulares!

Na diversidade que nos enriquece, esta falha há muito deveria ter sido corrigida, numa região que não vive apenas de grandes urbes e muito menos apenas de sítios que «toda a gente conhece».

Quanto à Várzea do Farelo, propriamente, muito haveria a contar…

Já ali foi encontrada uma necrópole da idade do bronze, tem uma lenda de bruxas, já teve durante anos um parque de campismo ilegal e tem uma ribeira marafada (a Ribeira do Farelo, que nasce a 462 metros de altitude na Serra de Monchique e percorre quase 20 Km antes de desaguar na Ribeira do Alvor)…

 

Como se o Montenegro não existisse…

26 Julho 2017

foto joao xavier - sinaletica sem o montenegro

Existe um país chamado Montenegro, mas já antes existia perto de Faro um sítio chamado Montenegro.

Cresceu, cresceu… e é já a mais nova freguesia do concelho de Faro.

Na freguesia do Montenegro, existe o maior campus universitário algarvio, o único aeroporto internacional do Algarve, o maior hospital privado do concelho, a Praia de Faro, uma série de supermercados, etc., etc.. Até é onde se realiza o maior evento anual de Faro, a famosa Concentração de Motos de Faro.

Pois, para quem chega perto da capital algarvia, vindo do barlavento, pela Estrada Nacional 125, não existe uma única placa indicativa do rumo a seguir por quem queira ir ao Montenegro!

É como se o Montenegro não existisse.

Haja quem acorde e mande colocar o nome do Montenegro nas placas!

 

A Soalheira escondida

11 Julho 2017

foto joao xavier - soalheira escondida

De repente, você quer virar à direita, mas não sabe para onde vai. A placa está ali… mas a alfarrobeira também!

As árvores gostam de crescer… e, no caso das alfarrobeiras, o crescimento é sempre bem vindo, pois a produção de alfarrobas aumenta e a capacidade de absorção do carbono também!

Há ali, contudo, um problema. Um problemazito…

As alfarrobeiras crescem mais depressa do que seria conveniente para os serviços que gerem as nossas estradas!

Crescem tão depressa que os serviços não têm capacidade de resposta!

A placa em causa situa-se em São Romão (concelho de São Brás de Alportel) e indica a direção para a Soalheira.

Não é uma placa muito necessária: no Algarve, para apanharmos uma soalheira não temos de ir até à Soalheira…

 

Vá até à Cortelha

17 Junho 2017

KODAK Digital Still Camera

Para quem se repete nos circuitos turísticos e viaja quase sempre para os mesmos sítios, recomendo hoje um passeio pela serra do Sotavento algarvio, sem precisar de chegar ao nordeste.

Vá até à Cortelha.

Muna-se de um mapa, apanhe o rumo norte em Vila Nova de Cacela e meta-se por uma estrada rural, primeiro em muito mau estado e mais acima com piso e perfis de boa qualidade.

Situada a mais de 200 metros de altitude, a cerca de 15 Km do Azinhal, a Cortelha é, em termos populacionais, a segunda maior localidade da freguesia do Azinhal (no ano 2011, foram recenseados na Cortelha 47 habitantes e 35 edifícios).

No ranking das edificações, a Cortelha é a 3ª maior povoação daquela freguesia castromarinense, com a particularidade de só ter atualmente edifícios construídos após a 2ª Guerra Mundial.

As habitações existentes na Cortelha são apenas de 1 ou 2 pisos, sendo uma delas a antiga escola primária.

Foi na Cortelha que nasceu em 1983 o ciclista Ricardo Mestre, vencedor da Volta a Portugal em Bicicleta em 2011.

«Cortelha» (do latim «cohorticula»), era um nome dado a currais, pocilgas, malhadas, pequenas cortes e cabanas de pastores.

Deixe a variante à aldeia e visite o aglomerado populacional.

Depois, pode seguir rumo ao Azinhal (há sinalizações a ajudar), vai passar sobre a bela ribeira do Beliche, abastecer-se na aldeia e retornar ao sul, quem sabe se para dar ainda uns mergulhos no cálido mar de Monte Gordo, Praia Verde ou Manta Rota, por exemplo.

O que você não vai mesmo esquecer é a viagem por um Algarve esquecido, natural, rude e puro… tão perto do litoral sobrelotado.

 

A biodiversidade do futebol

22 Fevereiro 2017

foto-joao-xavier-antiga-rua-dos-burros-lagos

«Só os burros falam de arbitragem!» – disse, há poucos anos, Filipe Vieira, presidente do Benfica. É um ideário que o fará repensar atualmente em quem contratou.

«Os principais clubes queixam-se muito, mas calam-se como ratos ao serem beneficiados.» – escreveu hoje no Record o editor chefe, Jorge Barbosa.

A simbologia dos animais nos clubes é muito interessante, porque, presumindo-se os humanos superiores aos outros animais, recorrem a eles como símbolos de grandes qualidades.

Em Portugal, entre muitos outros, temos os leões, as águias, os dragões e as panteras. Meros exemplos.

É bom termos biodiversidade no desporto e essa simbologia acaba por dar vida a um lado lúdico da vida. Ou como catarse ou para além da catarse…

[Na foto, a antiga Rua dos burros (em Lagos), onde, provavelmente, se falava muito de árbitros]

 

O século de Leão Penedo

13 Agosto 2016

foto joao xavier - rua leao penedo

Há cem anos, Leão Penedo nasceu em Faro.
Foi em 13 de agosto de 1916.
Depois de completar o ensino secundário na capital algarvia, foi viver em Lisboa e ali se tornou jornalista e escritor de mérito.
Algumas das suas obras, de grande qualidade reconhecida, foram argumento para o cinema de topo da sua época («Saltibanco», com Raul Semedo e «Sonhar é fácil», com António Silva e Laura Alves).
Com uma produção literária excecional nas décadas 40 e 50 do séc. XX, Leão Penedo gostava de vincar a sua marca algarvia.
Os seus livros são hoje praticamente desconhecidos, mas foram obras de referência no seu tempo: «Multidão» (publicado em 1942), «Caminhada» (em 1943), «Circo» (em 1946), «A raiz e o vento» (em 1954), «O homem enjaulado» (em 1955), «D. Roberto» (em 1962), etc.
Faleceu em Lisboa em 1976.
A capital do Algarve dedica-lhe uma rua, junto do Hospital de Faro.

Algarvia marafada com tufos nos sovacos

13 Julho 2016

foto joao xavier - pelos nos sovacos

A entrada de Salir foi requalificada e perdeu a placa toponímica, que deu lugar a um quadro de boas vindas com silhuetas.
No suposto rigor em relação à imagem que deu origem ao trabalho plástico, um pormenor ganhou aspeto desusado: nos sovacos da salirense bailadora, os cabelos mais parecem tufos de pelos…
Não havia necessidade…

Lagoa quer mudar de nome

9 Julho 2016

foto joao xavier - lagoa do algarve

Quem passa por Lagoa nota facilmente que o município local quer impor um novo nome para a cidade e para o concelho: «Lagoa do Algarve»!
O logotipo não é feio, mas não é propriamente uma ideia genial.
Lagoa é Lagoa, não precisa de acrescentar mais ao nome.
Lagoa dos Açores fica bastante longe e não há que enganar nem confundir.
Lagoa é apenas Lagoa – a propaganda agora exibida é apenas dinheiro deitado à rua.
Água é coisa que não escasseia por aquelas bandas. A lagoa que deu nome à terra já lagoa não é. Fiquemos com o topónimo.

A professora e as ratazanas

18 Março 2016

Foto joao xavier - rua da liberdade

Quando a guerra civil entre liberais e absolutistas espalhou o terror no Algarve, grupos liberais de Olhão montaram na zona hoje ocupada pela Rua da Liberdade um posto de defesa da então vila cubista. Corria o ano de 1833 e toda a zona envolvente era pantanosa, com sapais e esteiros da Ria Formosa.
Foi a derrota dos miguelistas que motivou o nome dado a esta rua.
Já no séc. XX, nos Santos Populares, a Rua de Liberdade, em Olhão, foi premiada em 1966, 1978 e 1983.
Comprida mas acanhada, sem passeios e mal alcatroada, esta Rua da Liberdade veio recentemente para os holofotes da imprensa nacional, devido a um caso escabroso de uma família triste.
Uma professora aposentada, octogenária, vive ali com uma filha de 65 anos, acamada (a dormir nua), e um filho (de 51) esquizofrénico.
No meio do lixo e em plena insustentabilidade, a família era frequentemente atacada pelas ratazanas que faziam daquele lar a sua casa.
Mordidas pelas ratazanas, mãe e filha foram então hospitalizadas e as reportagens televisivas entraram casa dentro…
Foi mais um caso para nos deixar atónitos e ao mesmo tempo indignados.
A sociedade urbana perdeu os níveis de solidariedade que antes as pequenas urbes conservavam. Vive-se cada vez mais a tentar assobiar para o lado e, mesmo com o elevado nível de desemprego e de inatividade que caracterizam a sociedade atual, inventam-se sempre indisponibilidades para a ajuda e para o altruísmo.
É-nos difícil imaginar o sofrimento daquela mulher que, depois de uma vida de trabalho, se vê com uma cruz tão pesada às costas… na rua da liberdade, mas sem saber o que é a verdadeira liberdade…