Rotundas sem demagogia

9 Fevereiro 2010 por João Xavier

Há rotundas para todos os gostos.

Esta, conhecida como a rotunda da Galp, em Beja, mistura arte, água e paciência.

Um trabalho artístico, decerto bem demorado como manda a boa filosofia alentejana, dá cor, forma e movimento a um espaço de entrada na cidade.

Será que há pessoas a preferirem rotundas meramente funcionais, sem arte nem estética que não sejam o círculo para ser contornado pelas viaturas?!

Tenho já nos comentários da pasta das Rotundas um que indicia esse pensamento…

Há gostos para tudo, obviamente. Mas a estética dos espaços públicos precisa de cuidados.

Há quem diga que, para poupar dinheiro para políticas “sociais”, poupa nas rotundas. Li isso algures.

E nessa dica acabo por perceber que, se também servem para fazer demagogia, as rotundas são hoje já um elemento de peso no panorama da nossa sociedade.

Vale a pena, pois, continuar a fazer uns posts sobre Rotundas. Testemunhos do mundo em que vivemos.

A Rua do Rhynchophorus Ferrugineus

8 Fevereiro 2010 por João Xavier

A palmeirite aguda que tinha atacado o Algarve nas últimas décadas tem agora uma resposta à altura: o Rhynchophorus ferrugineus chegou para ficar, dizimando as palmeiras das Canárias que davam ao Algarve um ar norteafricano…

Um pouco por todo o lado, de Sotavento a Barlavento, encontramos palmeiras em agonia ou já feridas de morte pelo referido inseto que coloniza aquelas plantas e em poucos meses as mina e as extermina, começando por fazer baixar a folhagem e depois, fazendo-as perder a clorofila, acaba por atingir o sistema central, deixando de pé apenas o espique.

A presença do Rhynchophorus é já uma praga no Algarve e tem o seu expoente máximo em Albufeira, onde uma rua junto ao Ocean Ville é já um autêntico monumento à voracidade animal: 8 palmeiras já lá vão!!!!!!!!

Como aquele arruamento ainda não tem nome, sugiro até à Câmara Municipal de Albufeira que o batize com o nome de Rua Rhynchophorus Ferrugineus…

Alportel e São Brás …

7 Fevereiro 2010 por João Xavier

Muitos desconhecem o passado do concelho de São Brás de Alportel e interrogam-se até, quando ouvem dizer que já existiu o concelho de Alportel, como testemunha esta fachada na principal avenida sambrasense.

Tudo se entende melhor quando estudamos a 1ª República (implantada há 100 anos) e as suas marcas de amadorismo, desordem e anticlericalismo.

Em 1914, existia a freguesia farense de São Brás de Alportel. Foi então esta freguesia separada do concelho de Faro, para passar a ser concelho, com o nome de concelho do Alportel, com sede na aldeia de São Brás, simultaneamente promovida a vila.

A bagunça desta toponímia deriva das azias que o clero desencadeava no poder  republicano: usar o nome de um santo na formação de um concelho retorcia as entranhas de quem queria ser vanguardista do laicismo, o que foi solucionado com a ginástica de batizar o concelho com o nome de uma aldeia vizinha da sede escolhida!…

Quando alguém lhe perguntar que raio de lógica tem o “CMA” num concelho que nunca esteve sedeado em Alportel, já sabe. Faça cultura. Esclareça.

E as estórias de Rosa Nunes?

6 Fevereiro 2010 por João Xavier

Nos recentes festejos do dia da freguesia da Sé, Rosa Nunes foi agraciado com uma medalha.

Sambrasense, Rosa Nunes tem 87 anos e vive em Faro. Desportista eclético, chegou a árbitro internacional de futebol.

Entre as estórias da sua vida, conta-se um jogo entre o Louletano e o Sambrasense, no estádio da Campina, no ido fevereiro de 1959, quando um avançado chocou violentamente contra uma baliza e fez cair a barra! Os tempos eram outros e a madeira não tem a resistência do metal…

O árbitro deu 15 minutos para a reparação da baliza e o resto do jogo decorreu sem incidentes de maior, além de duas expulsões.

Umas décadas mais tarde, Rosa Nunes, já licenciado, assistiu a um jogo por mim arbitrado e fez questão de esperar pela saída dos balneários para se apresentar e manifestar a alegria que tivera em ver atuar a então mais jovem equipa de arbitragem do futebol algarvio.

Que bom seria que a imprensa tivesse espaço para as memórias de gente que tem muito para contar!…

O Algarve United! Lembra-se?

5 Fevereiro 2010 por João Xavier

Estávamos no último minuto do jogo Ferreiras-Lusitano. O líder não aguentava a pressão e cedeu canto. Canto marcado, Hernâni apareceu de rompante e, de cabeça, fez o golo com que o Ferreiras acabou por vencer a equipa vilarrealense.

Hernâni foi um dos jogadores que formaram a primeira equipa do Algarve United, em 2004/2005, dando, como eu então disse à SIC, “uma pedrada no charco”.

O Algarve United conseguiu logo na época de estreia a subida à 1ª Divisão Distrital da Associação de Futebol do Algarve e acabou por desistir, depois de 76 jogos em que marcou 101 golos…

Hoje em dia, os distritais da AFA seguem amorfos, sem entusiasmarem multidões e sem surgirem nomes que sejam novas “pedradas no charco” (o Gejupce estreou-se na 2ª Divisão Distrital e vai neste momento com 15 derrotas em 15 jogos…).

Assisti em dezembro passado à vitória do Lusitano em Almancil e quando o jogo começou nem 50 espetadores lá estavam!…

(Se quer rever o humilde craque que agora repôs competitividade na 1ª Divisão Distrital algarvia, escreva Algarve United no motor de busca do Marafado e repare na foto publicada no post “A debandada“, em 21 de outubro de 2008. Hernâni é o 3º de pé a contar da esquerda.)

Reforma aos 67 anos!…

4 Fevereiro 2010 por João Xavier

Há uma qualquer cegueira muito esquisita que está a afetar os políticos modernos: começam por diminuir a amplitude da visão e acabam por não conseguir ver o ridículo das suas decisões políticas…

Zapatero, o primeiro-ministro espanhol, avançou com uma proposta para ajudar a equilibrar as finanças de nuestros hermanos: começar desde 2013 a aumentar a idade da reforma completa para os 67 anos!

Apetece perguntar: porque não 69?

Mas este não é um assunto de brincadeira: brinca com a dignidade de cada um e com a realidade do outono da vida… e isso não dá graça.

Por outro lado, atrasa a inserção dos nossos jovens no mercado do emprego estável, o que só favorece a baixa do consumo e a pouca estabilidade de vidas que estão em idade de produzir e não em idade de esperar.

Estes políticos sem tarimba preferem ver cinquentões e sexagenários a trabalhar e trintões à procura de emprego!

Não chegou ainda o tempo de se reduzirem os grandes vencimentos e as grandes pensões de reforma e aposentação que são um atentado ao bom senso.

Não chegou ainda o tempo de se privilegiar a entrada dos mais jovens para o lugar de quem já deu décadas de trabalho à sociedade.

Não chegou ainda o tempo de se libertar todos os sexagenários da obrigação de trabalhos stressantes e extenuantes.

Não chegou ainda o tempo de se resolverem os problemas financeiros atacando os negócios fraudulentos, as despesas supérfluas, os ganhos ilícitos e as fugas aos impostos.

Não chegou ainda o tempo de se procurarem os equilíbrios orçamentais sem sobrecarregar os assalariados pobres, já de si golpeados com ordenados miseráveis e humilhantes.

Este tempo é de uma geração de políticos viciados em chão polido, resorts e autogovernança. Políticos que não percebem a diferença enorme entre congelar um vencimento de 3000 euros e congelar um vencimento de 500 euros!…

E com eles no poder, vamos continuar a fazer marcha atrás. Eles vão pisar os direitos adquiridos e vão acelerar o retrocesso no respeito pela dignidade da pessoa humana.

Para eles, vão continuar a existir reformas com majoração da contagem do tempo de serviço; para os outros, vamos continuar a caminho da reposição da velha estória dos nossos bisavós: trabalhar sem limite de horário e trabalhar até morrer.

O tanas.

Torga e os ninhos

3 Fevereiro 2010 por João Xavier

“(…) Os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a bem-aventurança.”

Miguel Torga, “Um reino maravilhoso

Sobre a ribeira das Mercês, um passarinho construíu diligentemente o seu ninho, escondido entre folhagem abundante.

Chocou os ovos, criou os filhos e foi com a família toda tratar da vidinha.

Com o outono, as folhas amareleceram e acabaram por tombar.

O ninho ficou então, escancarado e só, à vista de toda a gente, símbolo de uma vida que se passa como testemunho. Resistindo aos temporais, graças à mestria de quem o fez sem precisar de qualquer curso de engenharia.

E eu fui olhá-lo… de cima.

O Pego do Inferno

2 Fevereiro 2010 por João Xavier

Hoje, que é o Dia Mundial das Zonas Húmidas, quero desde logo dizer que gosto muito de zonas húmidas.

E quero trazer-vos a imagem do Pego do Inferno, uma das mais bonitas zonas húmidas do Algarve.

Eu sei muito bem que, de acordo com a Convenção de Ramsar, assinada em 1971 no Irão, o Algarve só tem 3 Zonas Húmidas oficiais: a Ria Formosa, a Ria do Alvor e o Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António.

Mas temos mais recantos húmidos a necessitarem de cuidados especiais, agora que a voragem turisticóide avança para o barrocal e a serra!…

O Pego do Inferno é um dos recantos mais belos da nossa região. É uma das maravilhas do Algarve. E, ao que consta (com ou sem lenda…), já lá caíram dois bois que nunca mais apareceram…

A ribeira da Asseca tem ali uma das maiores cascatas algarvias. E toda a envolvência natural do sítio é uma relíquia da biodiversidade. Se ainda não conhece, procure esta pérola da freguesia de Santo Estêvão (Tavira) e delicie-se com a força, as cores, as formas e os sons da mãe Natureza.

O ribeiro do Tronco

1 Fevereiro 2010 por João Xavier

Sabia que a Fuzeta ainda há 500 anos se chamava Fozeta?

É verdade! Chamava-se Fozeta, porque nasceu e cresceu junto à foz do ribeiro do Tronco, que é um ribeiro intimamente ligado a duas vilas algarvias: Moncarapacho e Fuzeta.

O ribeiro do Tronco nasce na Serra de Monte Figo, passa em Moncarapacho sobre afloramentos rochosos e ruma ao sul, atravessando a Estrada Nacional 125 a Leste de Alfandanga. Desagua na Ria Formosa, formando um estuário junto à Fuzeta, que lhe deve o nome…

Em Moncarapacho, o ribeiro do Tronco beneficiou de um cuidado e meritório arranjo paisagístico que lhe destacou a beleza natural e preservou uma ponte do séc. XVIII, mas no resto do percurso está muito negligenciado. Vergonhosamente negligenciado…

O tempo às avessas

31 Janeiro 2010 por João Xavier

A relação do português com o tempo é deveras complicada.

Temos a mesma palavra para significar a meteorologia e o espaço temporal, ao contrário dos ingleses, por exemplo, que usam weather e time.

Geralmente, dizemos que o tempo anda às avessas quando faz frio no verão ou faz calor no inverno.

Deve ter sido essa a impressão com que os leitores ficaram, quando leram o título deste post.

Contudo, o tempo a que eu me referia é o que é contado pelos relógios.

Um dia destes, debaixo de uma abada de chuva, passei por Querença e fui tomar um cafezinho da Dona Rosa. Às tantas, reconfigurei a maneira de “ver as horas” ao olhar para o relógio da Dona Rosa: é um relógio às avessas.

Estamos sempre prontos a ser surpreendidos.