Chegou à grande cidade há uns anos, para “trabalhar nas obras”. Trouxe a mulher, das planícies alentejanas, qual extraterrestre num mundo novo.
No verão, ela deu à sola, para poder andar por onde muito bem lhe dá na telha, alucinada pelas modas e pela libertinagem. E ele viu-se abandonado, só, no meio da multidão desta sociedade de desconhecidos.
Ontem, vagueou pela cidade. Embebedou-se enquanto pôde, fez-se surdo aos anúncios da “festa da família” e quase ia vomitando quando ouviu falar em “consoada”.
Quando o dono do café o pôs na rua “para ir passar a noite de Natal em casa”, ele sentiu-se atirado para a beira de um abismo.
Então, num arrepio pelos caminhos da sobrevivência, decidiu-se: “Vou trabalhar”…
Viu uma calçada por acabar e agachou-se a pôr pedras no passeio.
Aproximava-se o relógio da meia noite e ainda ele parecia um trabalhador zeloso, a arrumar pedras e a espalhar terra com as mãos.
Passaram uns e disseram: “Passou-se, com certeza…”
Passaram outros e susurraram: “Deve tar bêbado…”
Quando os sinos tocaram para a missa do galo, levantou-se cambaleando e lá foi dizendo coisas sem jeito.
A calçada continuava por acabar, como aquela estória do pastor que deixava o rebanho para procurar a ovelha tresmalhada.









