Calçada por acabar

25 Dezembro 2009 por João Xavier

Chegou à grande cidade há uns anos, para “trabalhar nas obras”. Trouxe a mulher, das planícies alentejanas, qual extraterrestre num mundo novo.

No verão, ela deu à sola, para poder andar por onde muito bem lhe dá na telha, alucinada pelas modas e pela libertinagem. E ele viu-se abandonado, só, no meio da multidão desta sociedade de desconhecidos.

Ontem, vagueou pela cidade. Embebedou-se enquanto pôde, fez-se surdo aos anúncios da “festa da família” e quase ia vomitando quando ouviu falar em “consoada”.

Quando o dono do café o pôs na rua “para ir passar a noite de Natal em casa”, ele sentiu-se atirado para a beira de um abismo.

Então, num arrepio pelos caminhos da sobrevivência, decidiu-se: “Vou trabalhar”…

Viu uma calçada por acabar e agachou-se a pôr pedras no passeio.

Aproximava-se o relógio da meia noite e ainda ele parecia um trabalhador zeloso, a arrumar pedras e a espalhar terra com as mãos.

Passaram uns e disseram: “Passou-se, com certeza…”

Passaram outros e susurraram: “Deve tar bêbado…”

Quando os sinos tocaram para a missa do galo, levantou-se cambaleando e lá foi dizendo coisas sem jeito.

A calçada continuava por acabar, como aquela estória do pastor que deixava o rebanho para procurar a ovelha tresmalhada.

Que Natal?

24 Dezembro 2009 por João Xavier

São Lino, o segundo Papa, tanto pregou contra os deuses pagãos que os sacerdotes romanos o decapitaram ao fim de 9 anos de mandato…

E, apesar do sucesso que o cristianismo veio a ter, e em especial o catolicismo, os ritos pagãos sobreviveram e persistem na usurpação de festas religiosas, como a do Natal.

É fácil ouvirmos das nossas crianças a ideia de que o Natal é a festa do Pai Natal. E os rituais natalícios estão bem longe de fazer a festa em homenagem a quem nasceu por estas alturas, há mais de 2000 anos, numa cabana para burros e vacas… porque para à mãe grávida ninguém disponibilizou um cantinho numa casa ou numa estalagem…

Hoje, mal acordei, fiquei logo mal disposto com uma reportagem de Sandra Felgueiras na RTP: o trabalho jornalístico, bem elaborado, mostrou-nos algumas das prendas de Natal que se vão vendendo: relógios a 118 mil euros, anéis a 40 mil euros, sacos a 2 mil euros… eu sei lá que mais…

Esta é a podridão de quem pretende comprar “amizades”, em vez de repartir alegria e solidariedade. É a podridão de um país onde mais se nota a diferença entre ricos e pobres. É a podridão de uma sociedade onde quase todos vão fingindo que estão cheios de dinheiro, mesmo quando estão cheios é de dívidas…

Esta é a podridão que Jesus Cristo veio combater há uns 2000 anos…

Vendaval

23 Dezembro 2009 por João Xavier

Hoje acordei pouco depois das 3 da madrugada, com o barulho provocado pelo vendaval.

As janelas batiam, os vasos tombavam, as árvores abanavam violentamente, o vento rugia…

A Natureza usa os vendavais para a seleção natural das árvores, fazendo arrear as que são mais fracas e deixando para reprodução as mais resistentes. Ao mesmo tempo, limpa os ramos e fornece mais material orgânico para a fertilização dos solos.

Nas cidades que vamos construindo, tudo fica em perigo. Árvores tombam causando prejuízos em casas e viaturas, contentores do lixo correm as ruas, tapumes voam, telhas são arrancadas… e até a gigante “árvore de Natal” de Portimão tombou…

Em Portugal, 40 mil casas ficaram sem eletricidade, devido ao forte vendaval que durante a madrugada correu o país, com rajadas que chegaram aos 200 km/hora…

O inverno chegou, pois, com vontade de nos mostrar a nossa dimensão.

O trabalho não liberta

22 Dezembro 2009 por João Xavier

Fiquei esparvatado com o estardalhaço que a imprensa mundial e muitos políticos mundo fora fizeram, escandalizados só porque alguém roubou a placa nazi do portão do campo de concentração de Auschwitz.

Eu acho até que foram mãos abençoadas as que fizeram arrear o ferro forjado. Entretanto, os autores da proeza já foram presos, mas o tema deve ser melhor estudado.

Inspirado na doutrina de exploração do trabalho operário por ocasião da revolução industrial, o pastor alemão Lorenz Diefenbach criou a frase “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”) e os nazis, 5 décadas depois, usaram-na como símbolo de propaganda e escolheram-na como símbolo dos campos de concentração.

Para os poderes instituídos, inimigos figadais da ideologia nazi, é aberrante este melindre pelo arrear de um símbolo nazi!

O trabalho, por muito que custe aos líderes, não liberta: bem pelo contrário, o trabalho, na tipologia que nos é imposta, adoece.

As doenças profissionais estão a aumentar em Portugal e na generalidade dos países desenvolvidos.

Tendinites, dermatites, asma, problemas auditivos e visuais e distúrbios psíquicos e neurológicos são os géneros de maleitas que muitos trabalhadores ganham com a dedicação e a luta por um ordenado ao fim do mês.

Hoje em dia, com a competitividade e a ganância dos rendimentos, são negligenciados muitos cuidados primários com a saúde e a segurança de quem trabalha.

Na função pública, por exemplo, em 2005 foram registados 477 trabalhadores com doenças profissionais relacionadas, a maior parte, com afeções músculoesqueléticas, incluindo problemas de coluna, tendinites, hérnias e paralisias quase todas a agradecer à informatização dos serviços…

O trabalho liberta, sim, quando é humano, digno, ponderado, intervalado, saudável, sem rotinas maquinais. Não, quando é feito sob pressão, competitivo, aglutinado, apressado, stressado, repetitivo, desumano, poluído, extenuante.

Já fez um presépio algarvio?

21 Dezembro 2009 por João Xavier

Já fez um presépio algarvio?

Na tradição medieval do Algarve, perdurou a construção de um presépio de adoração ao Deus Menino.

Construa um altar (pequeno ou grande, conforme quiser e puder), forre-o com pano branco e ornamente-o com rendas brancas.

Ao alto, coloque uma imagem do Menino Jesus criança (às vezes encontramos à venda como Menino Jesus de Praga).

Nos degraus do altar e na base, coloque laranjas, alfarrobas, amêndoas e searinhas.

Está feito o Presépio Algarvio. Simples e bonito.

A cimeira biodesagradável

20 Dezembro 2009 por João Xavier

A Cimeira de Copenhaga foi um dos maiores embustes em que caímos nos últimos tempos.

Milhares de pessoas representando quase todos os países do mundo andaram pela Dinamarca pisando flores, poluindo e gastando dinheiro, com a pretensa intenção de gerar um acordo contra as alterações climáticas.

E este logro tem duas facetas…

A 1ª é o pedantismo de que o ser humano é tão poderoso que consegue baixar a temperatura do planeta quando quiser. Os arrefecimentos e os aquecimentos globais sempre aconteceram e estão testemunhados em referências que os geólogos e os botânicos conseguem identificar sem dificuldade…

A 2ª faceta deste malogro da cimeira do clima foi a hipocrisia com que as delegações nacionais se apresentaram, mostrando que, afinal, não existe para os poderes constituídos a noção de humanidade: conforme cada interesse, foi proposto que a contabilidade da emissão de dióxido de carbono tenha em conta os km2, o número de habitantes ou o índice de desenvolvimento. O que for mais conveniente…

Os acordos que saíram da cimeira de Copenhaga falam em limitar o aumento da temperatura média em 2 graus, no séc. XXI. Dizem que ainda se poderão aumentar até 2020 as emissões de CO2…

O Homem vai continuar a ser cada vez mais um homo electricus, enchendo o planeta de radiações, vai continuar a desflorestar e impermeabilizar a superfície terrestre, vai continuar a inventar cada vez mais venenos e outros produtos tóxicos, vai continuar a viajar banalmente de avião, vai continuar a gastar fortunas em investigações balofas, vai continuar a ter o capital e o lucro como deuses…

E milhares de pessoas vão gabar-se de ter passado uns dias na Dinamarca a conhecer as paisagens nórdicas e a fazer amigos.

A cimeira, essa, foi biodegradável. Ou melhor, foi biodesagradável…

Uma referência cultural

19 Dezembro 2009 por João Xavier

Há quem diga que os bloguistas são por norma uns exagerados.

Não concordo. Os bloguistas são pessoas que gostam de comunicar e usam um novo meio para o fazer.

Abri um dia destes o quadro das estatísticas do Marafado e fiquei estupefacto com os milhares de visitas que ele já contabiliza.

Uns vêm cá ter porque me conhecem, outros porque o Google os encaminha, outros porque na imprensa lhe descobrem temas interessantes.

Para mim, um blog é como um filho: não o criamos para nós mesmos, mas para o darmos ao mundo.

Este é, pelo menos, o ponto de partida.

Depois, vamos criando as nossas ilusões, traçando novas metas,reagindo a novas realidades. Mas nunca devemos esquecer o objetivo principal.

É nesta linha de pensamento que se torna importante referir que o Marafado não é mais um blog pessoal: é uma referência cultural. Com visão e com visibilidade pública.

A saúde das esdrúxulas

18 Dezembro 2009 por João Xavier

O problema das palavras esdrúxulas surge amiúde nas várias vertentes da escrita da língua portuguesa.

Como já há pouco tempo escrevi, a regra da acentuação de todas as palavras esdrúxulas não é ancestral: há um século, não estava em vigor, nem fazia falta… mas devemos respeitá-la, porque está em vigor e vai continuar a estar, no novo acordo ortográfico.

O exemplo que trago hoje foi recolhido em Lagoa e mostra bem a confusão que o esdruxalismo acentuado gera em muita gente (acentuam umas palavras esdrúxulas e não acentuam outras palavras esdrúxulas!!!).

Ah! Já me ia esquecendo de dizer que uma palavra esdrúxula é uma palavra cuja sílaba tónica é a antepenúltima.

No caso em apreço, deveriam ter escrito “clínica”.

Isto está tremido…

17 Dezembro 2009 por João Xavier

Ao que nos diz o registo do Instituto de Meteorologia, desde que a Terra tremeu à 1h37m da madrugada, temos estado a tremer toda a madrugada: até às 8 horas, foram registados 16 sismos, todos com epicentro a Sudoeste do Cabo São Vicente.

O maior teve a magnitude de 6 graus na escala de Richter (uma escala de 9, inventada em 1935 pelo geofísico norteamericano Charles Francis Richter), com epicentro a 31 km de profundidade, a 100 km do Cabo São Vicente e com a duração de 10 segundos. Numa falha tectónica conhecida como falha Marquês de Pombal.

Graças a Deus, a energia libertada do interior do planeta foi doseada em pequenas mexidas, ao longo de várias horas… o que não impediu o sismo de ficar registado como o maior dos últimos 40 anos no Algarve.

O outro, em 1969, chegou a fazer cair um bloco da fachada da Igreja São Pedro  (em Faro) e fez-me saltar, com o medo provocado pelo estremecimento das janelas e da cama…

Susto no Forum Algarve

16 Dezembro 2009 por João Xavier

O Forum Algarve, que está a receber uma média de 30 mil visitas por dia, teve há pouquinho as suas horas de tensão, com a queda de placas de cobertura de um corredor, junto ao Jumbo.

O peso das decorações de Natal poderá ter estado na origem do acidente, que assustou bastante gente e fez encerrar o hipermercado. Apenas uma pessoa sofreu ferimentos.

Polícia e bombeiros tomaram conta da situação e, por causa das moscas, foram retiradas as gigantescas armações que davam um ambiente ímpar às compras natalícias no maior centro comercial da capital algarvia.

Ocupando uma área de 40 mil m2 junto à Estrada Nacional 125, o Forum Algarve foi inaugurado em Março de 2001.